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A atmosfera poética do Cinema dos anos 60

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.01.10

 

Diz-se de quem ama o Cinema que é cinéfilo, mas eu nunca me incluí nessa classificação. Não me considero cinéfila e amo o Cinema.

Não pertenço a nenhum grupo de fãs, não colecciono filmes como alguns amigos, não assino revistas de cinema, não estou a par das estreias e desconheço os nomes dos realizadores e actores mais recentes, uma vergonha.

Mas posso dizer que amo o Cinema, que por ele me deixei fascinar e que ainda me hipnotiza, a sua atmosfera, a sua tonalidade, os diálogos, os sons...

Para mim é um mundo tão real como aquele em que me movimento, e tão vivo como este. Pode soar-vos estranho, uma excentricidade, mas aprendi imenso a ver filmes, aprendi por exemplo que não estamos limitados a esta mediocridade que nos rodeia, que há um mundo possível se o quisermos inventar, onde podemos respirar livremente, viver plenamente.

 

Desde os primeiros musicais que vi a preto e branco até aos épicos, aos westerns, às comédias, que o Cinema me prendeu para sempre. Entrou no filme, diziam de mim lá em casa, pois concentrava-me de tal forma que não ouvia ninguém.

 

Certamente que este To Kill a Mockingbird o terei visto na fase impressionável porque as cenas me pareceram familiares, aquela cidadezinha perdida no sul, os argumentos do advogado Atticus no tribunal em defesa do jovem negro, o ambiente, por vezes sufocante por vezes acolhedor, de um mundo isolado e dividido.

Uma das originalidades do filme é a utilização do narrador a recordar esse verão, em que era apenas uma rapariguinha de seis anos: Scout, filha de Atticus. É pelos seus olhos e das outras crianças, o seu irmão Jem e o primo Dill, que vamos acompanhando aquele caso terrível de ignorância, intolerância e racismo de uma comunidade fechada, no tempo da depressão.

O rapaz negro, injustamente acusado de violar uma rapariga branca, não terá hipótese com um júri formado apenas por brancos. O final já se adivinha, mesmo antes de o sabermos.

 

Atticus é a personagem-herói típica, da natureza dos heróis que apenas cumprem o seu dever, apenas assumem a sua responsabilidade. Dele dirá a sua governanta, sentada nas escadas à porta de casa com as crianças: Há pessoas que fazem por nós a parte desagradável, como o vosso pai.

 

Comoventes algumas cenas: o filho que insiste em acompanhar o pai quando vai dar a má notícia à família. A forma como o vê enfrentar pacificamente a agressividade do pai da rapariga branca. As duas crianças a atravessar o bosque e a ser atacadas por esse homem agressivo, e depois salvas pelo Boo, o homem que consideravam louco e até perigoso. A rapariguinha a pedir ao Boo para se despedir do Jem que dorme, a salvo, depois do ataque que lhe fracturara um braço. O Xerife a decidir não acusar Boo, uma vez que as contas estão saldadas, uma morte pela outra. E a frase mais poética: Seria como matar um passarinho.

 

Se pensamos que há inovações em Cinema, estamos muito enganados. Já foi tudo experimentado. A inovação está simplesmente na tecnologia, nos efeitos especiais. E mesmo que se tente melhorar a técnica, a atmosfera é irrepetível. Não sei explicar isto melhor. Havia uma qualidade no Cinema dos anos 60 que se terá perdido na década seguinte: uma frescura, uma verdade, uma simplicidade, uma emoção que não se sabe de onde vem...

Ou então sou eu que transporto essa vivência só minha para o filme e já não os sei distinguir...

 

Também na utilização do narrador filosófico que nos deixa mensagens, e que agora é frequente em diversos filmes e séries televisivas. Vemos Scout levar Boo pela mão para a casa onde ele vive, isolado, e dizer-nos: Só conhecemos alguém se vestirmos a sua pele por uns tempos... As crianças tinham descoberto um amigo, um aliado, em alguém que tinham considerado louco e perigoso, só porque era diferente.

 

Curiosidades: consegui identificar o Robert Duvall na pele de Boo! Muito mais jovem, claro. Não é fácil, pois o rosto altera-se,  mas há pequenas nuances para alguém muito atento.

Nesta personagem vi de certo modo o Eduardo Mãos de Tesoura de Tim Burton. E na própria atmosfera do filme, sente-se já a antecipação de realizadores actuais que revelam uma sensibilidade semelhante. É como se este Cinema lhes tivesse aberto o caminho, a essa nova sensibilidade.

 

Que mais posso eu dizer sobre esta pequena obra-prima? Que é mais um filme baseado num livro premiado com um Pulitzer. Com um guião muito bem concebido. E uma realização impecável. A fotografia, a montagem, os diálogos, a narração, a banda sonora... de tirar a respiração. E os actores, bem, perfeitos.

 

 

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publicado às 01:57


4 comentários

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De cerrajeria Huelva a 29.01.2010 às 11:42

Filmes agora só a donwload ;)
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 29.01.2010 às 12:30

Sim, os filmes raros talvez só assim se encontrem.
Mas já há muitos filmes clássicos em DVD, felizmente.
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De Cajas fuertes en Malaga a 29.01.2010 às 14:36

Parabens pelo post, li e adorei
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 29.01.2010 às 19:06

Obrigada.
E vale a pena ver o filme quando tiver oportunidade.

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